O SURTO





Entre pessoas e pessoas altas ou baixas, nas ruas, nos becos, nas construções, nas desconstruções, nas esquinas da direita, nas esquinas da esquerda, nos edifícios mais altos, nos edifícios de dois, três, quatro andares, em cada ponto da cidade, elas vivem suas vidas com milagres ou sem milagres, umas com o pão e outras com o vinho.
Quem, no meio de tanta gente, um pouco depois do entardecer, poderia apresentar ser alguém, que poderia receber algo que nunca teve e por um momento ser feliz com uma novidade simples, que muitos têm e não dão a devida importância no valor, ou talvez a felicidade de muitos, para um, poderia ser uma agonia.
Otílio era uma pessoa calma, de traços suaves, cabelos negros, pele clara sem muita expressão e olhos escuros; caminhava devagar até sua casa; já era noite, trabalhou o dia todo, porém o seu ânimo era ameno.
Caminhava sem pensar, as pessoas passavam por seu lado, entretanto isso não incomodava Otílio, já era acostumado e nada representava uma novidade.
Otílio chegou em casa, tirou o casaco colocando-o em cima do sofá, olhou a sua volta e, como sempre, estava sozinho, mas isso não o deixava triste. pelo contrário, tudo estava do mesmo jeito que tinha deixado quando saiu: o mesmo cheiro e até o mesmo sabor. Otílio estava feliz, sentia que a parede de sua casa o abraçava, de forma suave e ao mesmo tempo intensa.
Para comemorar toda essa harmonia, abriu uma garrafa de vinho, pegou uma taça, ligou a tv e começou a beber saboreando o seu descanso da noite pós-responsabilidades diárias. Já cansado, desligou sua televisão, sentou à mesa da cozinha para terminar de beber seu último copo de vinho, com os dedos na parte mais fina da taça, rodando-a para passar o tempo. Otílio escutou pela primeira vez um ruído.
O som saía da taça, admirado tentou de diversas formas entender o que acontecia, sem explicação, quanto mais rodava a taça esfregando a sua parte de formato redondo na mesa, fazia-se som. Embriagado, não com o vinho, mas sim com a experiência de ouvir o caminho que o líquido fazia ao escorregar pela garrafa e entrar na taça, transbordando-a, caindo o vermelho bordô sobre a mesa, aquilo se transformou em sinfonia e o vinho que antes não tinha cor se transformava em uma cor extremamente brilhante. Otílio teve certeza de que poderia passar a vida inteira sem sair dali, sem precisar beber o vinho e sim, apenas olhar a cor e o som que
fazia. Esfregando os olhos deu por si algo que não era comum, acusando o álcool. Otílio foi dormir, pois no dia seguinte precisava chegar cedo ao trabalho.
O passarinho cantava, cantava na manhã em que Otílio dormiu para acordar acreditando que escutava por causa do sono. Algo acontecia e Otílio não sabia o que era, levantou rapidamente, lavou o seu rosto e caminhou para perto do pássaro. O pássaro fazia o som, e o som ficava mais alto conforme Otílio chegasse perto. O bico do pássaro estava colorido, com a mesma intensidade de cor do vinho da noite passada. Otílio começou a brincar com os sons, primeiro começou a escutar seus passos, o som dos passos que sempre andaram com ele; abriu a torneira; bateu com suas mãos nas paredes; escutou a gota que caía do chuveiro; abriu a geladeira, fechou; ligou e desligou a luz. Tudo que começava a ganhar som mudava repentinamente para cor, os objetos que transmitiam o som ficavam coloridos.
Otílio estava extremamente envolvido no que acabara de lhe acontecer, se fosse possível comeria tudo aquilo que estava ouvindo, pois lhe parecia saboroso. Queria desbravar. Quais sons mais eu posso escutar? Quantos sons estão me esperando lá fora, no mundo ?
Abriu a porta de seu apartamento. Um corredor grande separava as portas da direita das portas da esquerda. Uma criança jogava uma bola no chão, cada passo da criança parecia que balançava o prédio inteiro, cada contato da bola no chão era como se fosse um tiro. Otílio queria sair dali, andou pelo corredor querendo não prestar atenção mesmo sendo impossível. Da porta ao lado podia se ouvir um aspirador; da porta mais a frente vinha o choro de um bebê, incessantemente, e esse incessantemente começou a perturbar o ouvido de Otílio. Todos os barulhos começavam a ganhar cor, cores tão intensas que a perturbação do ouvido escorregou para os olhos. Otílio desceu as escadas, o barulho de seus passos estava dando a sensação de perseguição, correndo com intenção de sair daquele corredor para voltar a seu equilíbrio, encontrou um cachorro enlouquecido na porta de saída, que latia e rosnava na sua direção, cada latido entrava em seus ouvidos como estiletes afiados e todo aquele movimento que o cão fazia se resumia a um barulho incessante. Correndo para o lado de fora do edifício já com vestígios de desespero, deu de cara com a reforma que estavam fazendo no estacionamento do prédio havia uma semana, pessoas falando alto, barulho de ferramentas. 
Correu para esquerda, por onde passou novamente pelo cachorro e pela senhora que carregava a corrente agora gritando para o cachorro ficar quieto; a sua direita haviam crianças felizes dando gargalhadas no balanço. O barulho do balanço, as gargalhadas, a reforma e suas ferramentas, o cachorro latindo e sua dona gritando, a criança chorando, a bola do menino, os passos do menino, tudo isso estava incubado no ouvido de Otílio, seguindo-o por entre as escadas, correndo, correndo, rapidamente para dentro de seu apartamento, gritando “cala, cala”. Ele podia ouvir o som agoniante de palavras malformadas que saía de sua boca, dando a sensação de impossibilidade de expressão.
     Coçando o ouvido como um cachorro com as mãos, no ato de desespero começou a quebrar tudo que encontrava pela frente, fazendo mais barulho e deixando-o cada vez mais nervoso. As pessoas dos apartamentos ao lado começaram a perceber o  descontrole de Otílio destruindo o seu apartamento e se aglomeraram na porta para ver o que estava acontecendo com o moço que sempre foi tranquilo.
Otílio, desesperado e destruidor, com todos aqueles barulhos impregnados em seus ouvidos e aquelas cores impregnadas em seus olhos, pegou a garrafa de vinho e, como culpada por aquele “desmilagre”, jogou-a contra a janela de vidro. O vidro se espatifou no ar fazendo som ao ser quebrado e ao cair no chão. Subitamente, junto com esse estrondo que chegou como um soco, prorrompeu o som que muito sonhava. O som do mundo. Um imenso barulho da cidade, com buzinas, alarmes, passos de pessoas, conversas, fofocas, mentiras, assaltos, histórias tristes, corruptas, pessoas que morrem, gritos, sussurros inocentes e pecaminosos, promessas, dor, desespero.
O barulho do mundo foi o suficiente para que Otílio chegasse ao ápice da sua loucura. Não aguentando mais, sem pensar nem por um instante, pois o instante já não existia, pegou um dos cacos de vidro pontudo da janela que lhe mostrou o barulho do mundo e enfiou por entre os canais dos ouvidos, ultrapassando os tímpanos. O sangue jorrava, as pessoas já estavam dentro do apartamento caladas e espantadas. Otílio caiu no chão com uma expressão plácida.


Texto : Cachycol 
raphaelavieiradasilva@gmail.com

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